Poema Natural - Adalgisa Nery
quarta-feira, outubro 17, 2007
zandormaz
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POEMA NATURAL
Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do
tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao
vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
(Adalgisa Nery)
Esse poema de Adalgisa Nery é uma pequena meditação sobre algo imenso: a dissolução do “eu”.
Ele começa com um contraste simples, mas poderoso:
“Abro os olhos, não vi nada / Fecho os olhos, já vi tudo.”
Aqui já surge a chave do poema: a visão interior é mais ampla que a exterior. Não é o mundo que é pequeno — é o olhar comum que limita.
🌿 A ideia central: “Eu sou tudo”
Ao longo do texto, o eu lírico se funde com:
E repete como um mantra:
“Eu estou lá, / Ela sou eu.”
Isso não é apenas metáfora poética — é quase uma visão panteísta ou até próxima de filosofias orientais:
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não existe separação real entre sujeito e objeto
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o “eu” não está isolado, mas espalhado pela natureza
🔄 Ciclo e impermanência
Cada elemento passa por transformação:
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nuvem → chuva
-
alga → seca → pó
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pedra → desgaste
O poema mostra que:
tudo muda… e o “eu” muda junto
É uma visão muito próxima da ideia de impermanência:
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nada é fixo
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identidade não é estável
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existir é transitar
🧠 Leitura mais profunda (filosófica)
O poema toca em algo que lembra:
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o “tudo é um” de tradições antigas
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a dissolução do ego
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a percepção de que o “eu” é só uma forma temporária
Não é só contemplação da natureza — é uma expansão da consciência.
✨ O que torna o poema forte
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Linguagem simples, quase infantil
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Ideia extremamente profunda
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Repetição que cria ritmo e identidade
Ele não tenta explicar — ele faz você sentir.
🧩 Em uma frase
Esse poema sugere que:
você não observa o mundo — você é o próprio movimento do mundo.
Adalgisa Nery (1905–1980) foi uma escritora, poeta e jornalista brasileira, conhecida por sua obra intensa, sensível e muitas vezes marcada por reflexões existenciais.
🧠 Quem foi ela
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Nasceu no Rio de Janeiro
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Viveu em meio a círculos intelectuais e artísticos importantes do Brasil
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Teve uma vida pessoal marcante, com experiências que influenciaram fortemente sua escrita
✍️ Sua obra
Adalgisa escreveu:
Seu estilo costuma ser:
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introspectivo
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filosófico
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emocionalmente profundo
Ela abordava temas como:
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identidade
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existência
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dor
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transformação
💔 Vida pessoal
A vida dela teve momentos intensos:
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Foi casada com o pintor Ismael Nery
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Após a morte dele, sua escrita ganhou ainda mais profundidade e melancolia
🏛️ Reconhecimento
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Tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras
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É considerada uma voz importante da literatura brasileira do século XX
🧩 Em resumo
Adalgisa Nery foi uma autora que escreveu com alma — seus textos não apenas descrevem o mundo, mas tentam compreender o que é existir dentro dele.