Poema Natural - Adalgisa Nery

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POEMA NATURAL
Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do
tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao
vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
(Adalgisa Nery)

Esse poema de Adalgisa Nery é uma pequena meditação sobre algo imenso: a dissolução do “eu”.

Ele começa com um contraste simples, mas poderoso:

“Abro os olhos, não vi nada / Fecho os olhos, já vi tudo.”

Aqui já surge a chave do poema: a visão interior é mais ampla que a exterior. Não é o mundo que é pequeno — é o olhar comum que limita.


🌿 A ideia central: “Eu sou tudo”

Ao longo do texto, o eu lírico se funde com:

  • a nuvem
  • a alga
  • a pedra

E repete como um mantra:

“Eu estou lá, / Ela sou eu.”

Isso não é apenas metáfora poética — é quase uma visão panteísta ou até próxima de filosofias orientais:

  • não existe separação real entre sujeito e objeto
  • o “eu” não está isolado, mas espalhado pela natureza

🔄 Ciclo e impermanência

Cada elemento passa por transformação:

  • nuvem → chuva
  • alga → seca → pó
  • pedra → desgaste

O poema mostra que:

tudo muda… e o “eu” muda junto

É uma visão muito próxima da ideia de impermanência:

  • nada é fixo
  • identidade não é estável
  • existir é transitar

🧠 Leitura mais profunda (filosófica)

O poema toca em algo que lembra:

  • o “tudo é um” de tradições antigas
  • a dissolução do ego
  • a percepção de que o “eu” é só uma forma temporária

Não é só contemplação da natureza — é uma expansão da consciência.


✨ O que torna o poema forte

  • Linguagem simples, quase infantil
  • Ideia extremamente profunda
  • Repetição que cria ritmo e identidade

Ele não tenta explicar — ele faz você sentir.


🧩 Em uma frase

Esse poema sugere que:

você não observa o mundo — você é o próprio movimento do mundo.


Adalgisa Nery (1905–1980) foi uma escritora, poeta e jornalista brasileira, conhecida por sua obra intensa, sensível e muitas vezes marcada por reflexões existenciais.


🧠 Quem foi ela

  • Nasceu no Rio de Janeiro
  • Viveu em meio a círculos intelectuais e artísticos importantes do Brasil
  • Teve uma vida pessoal marcante, com experiências que influenciaram fortemente sua escrita

✍️ Sua obra

Adalgisa escreveu:

  • poesia
  • romances
  • crônicas

Seu estilo costuma ser:

  • introspectivo
  • filosófico
  • emocionalmente profundo

Ela abordava temas como:

  • identidade
  • existência
  • dor
  • transformação

💔 Vida pessoal

A vida dela teve momentos intensos:

  • Foi casada com o pintor Ismael Nery
  • Após a morte dele, sua escrita ganhou ainda mais profundidade e melancolia

🏛️ Reconhecimento

  • Tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras
  • É considerada uma voz importante da literatura brasileira do século XX

🧩 Em resumo

Adalgisa Nery foi uma autora que escreveu com alma — seus textos não apenas descrevem o mundo, mas tentam compreender o que é existir dentro dele.

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