Augusto dos Anjos Poemas - A AERONAVE

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Cindindo a vastidão do Azul profundo,
Sulcando o espaço, devassando a terra,
A Aeronave que um mistério encerra
Vai pelo espaço acompanhando o mundo.

E na esteira sem fim da azúlea esfera
Ei-la embalada n'amplidão dos ares,
Fitando o abismo sepulcral dos mares
Vencendo o azul que ante si s'erguera.

Voa, se eleva em busca do Infinito,
É como um despertar de estranho mito,
Auroreando a humana consciência.

Cheia da luz do cintilar de um astro,
Deixa ver na fulgência do seu rastro
A trajetória augusta da Ciência.

Comentário ao poema “A Aeronave” de Augusto dos Anjos

O poema “A Aeronave” de Augusto dos Anjos é uma explosão de imagens trágicas e filosóficas, onde o voo não representa liberdade, mas queda. A aeronave, símbolo da modernidade e do progresso, é também metáfora do destino humano: uma trajetória que começa com impulso e termina em ruína.

O voo como condenação

Augusto dos Anjos transforma o ato de voar em um gesto de desespero. A aeronave não sobe para conquistar o céu, mas para se precipitar no abismo. O movimento ascendente é apenas o prelúdio da queda. Há uma ironia cruel na imagem: aquilo que deveria elevar, destrói.

A linguagem do colapso

Como em grande parte de sua obra, o poeta usa uma linguagem carregada de termos científicos, filosóficos e existenciais. A aeronave não é apenas um objeto — é um organismo em agonia, um símbolo da alma humana em conflito com o tempo, com a matéria, com a morte.

Tragédia encenada

O poema encena uma tragédia cósmica: o ser humano, em sua ânsia de ultrapassar limites, acaba por se consumir. A aeronave em chamas é o reflexo de uma civilização que arde em seus próprios excessos. O impacto final é inevitável — e profundamente revelador.

📖 A Aeronave é um poema que não apenas descreve uma queda, mas a vive. Augusto dos Anjos nos arrasta para dentro do incêndio, para dentro do colapso, e nos obriga a encarar a vertigem da existência. É poesia que não consola — mas ilumina, como o fogo que consome.


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