Lembrando Leminski- Campo de Sucatas

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Saudade do futuro que não houve

Aquele que ia ser nobre e pobre

Como é que tudo aquilo pôde

Virar esse presente podre

E esse desespero em lata?


Trecho do livro Ex-estranho (1996) de Paulo Leminski. Neste livro tem um pequeno texto introdutório:
"Este livro ... expressa, na maior parte de seus poemas, uma vivência de despaisamento, o desconforto do not-belonging, o mal-estar do fora-de-foco, os mais modernos dos sentimentos".

Saudade do futuro que não houve: Paulo Leminski

O poema de Paulo Leminski — “Saudade do futuro que não houve / Aquele que ia ser nobre e pobre / Como é que tudo aquilo pôde / Virar esse presente podre / E esse desespero em lata?” — é um retrato breve e contundente do desencanto contemporâneo.

A saudade do que nunca existiu

Aqui, Leminski cria uma imagem paradoxal: sentir saudade de algo que não aconteceu. Não é memória, não é passado, mas luto por um futuro que se imaginava digno, ainda que simples, e que se perdeu antes de nascer. O contraste entre “nobre e pobre” e “presente podre” revela a corrosão das expectativas, a ironia amarga de quem vê o tempo transformar promessas em ruínas.

O mal-estar do presente

O poema dialoga diretamente com o texto introdutório de Ex-estranho, que fala em “despaisamento” e “not-belonging”. Essa sensação de não-pertencimento atravessa os versos: o sujeito lírico não se reconhece no presente, vive um desconforto existencial que é coletivo, marcado pelo desencanto político, social e pessoal. O “desespero em lata” sugere sufocamento, uma angústia industrializada, pronta para consumo, como se até o desespero fosse mercadoria.

A força da concisão

Em apenas cinco versos, Leminski condensa uma reflexão que poderia ocupar páginas inteiras. Sua ironia ácida, sua musicalidade e sua economia verbal transformam o poema em um soco breve e certeiro. É poesia que não se perde em ornamentos: vai direto ao ponto, e o ponto é o vazio.


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