Poemas - Paulo Leminski

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Poemas – Paulo Leminski

eu

quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa

está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora


de dentro do meu centro
este poema me olha

Comentário ao poema “eu” de Paulo Leminski

Este poema de Paulo Leminski é um exercício de introspecção e percepção. Em poucos versos, ele nos convida a refletir sobre o olhar — não apenas como gesto, mas como revelação. O “olhar que demora” é o fio condutor entre o dentro e o fora, entre o ser e o parecer.

O olhar como medida de presença

“Quando olho nos olhos / sei quando uma pessoa / está por dentro / ou está por fora” — aqui, Leminski afirma que o olhar é um termômetro da autenticidade. Quem está “por dentro” sustenta o encontro, encara o outro, permanece. Já quem está “por fora” escapa, desvia, não suporta a permanência do olhar. O poema sugere que o olhar é mais do que visão: é vínculo, é coragem, é verdade.

O centro como lugar de origem

“De dentro do meu centro / este poema me olha” — o fechamento é uma inversão poderosa. O poema, que nasceu do centro do eu, agora olha de volta. Há aqui uma circularidade: o sujeito cria o poema, mas também é criado por ele. O texto se torna espelho, devolve ao autor (e ao leitor) uma imagem que interroga, que observa, que exige presença.

Minimalismo e profundidade

Leminski usa poucos versos, mas cada palavra carrega densidade. A estrutura enxuta não diminui a força do conteúdo — ao contrário, intensifica. O poema é direto, mas não simplista. É breve, mas não superficial. É uma meditação sobre o encontro, sobre o que se revela no silêncio entre dois olhares.

📖 Este poema é um convite à escuta do olhar. Leminski nos lembra que há pessoas que estão “por fora” mesmo quando estão presentes — e que há poemas que nos olham mais profundamente do que muita gente.


PAREÇA E DESAPAREÇA

Parece que foi ontem.

Tudo parecia alguma coisa.

O dia parecia noite.

E o vinho parecia rosas.

Até parece mentira,

tudo parecia alguma coisa.

O tempo parecia pouco,

e a gente se parecia muito.

A dor, sobretudo,

parecia prazer.

Parecer era tudo

que as coisas sabiam fazer.

O próximo, eu mesmo.

Tão fácil ser semelhante,

quando eu tinha um espelho

pra me servir de exemplo.

Mas vice versa e vide a vida.

Nada se parece com nada.

A fita não coincide

Com a tragédia encenada.

Parece que foi ontem.

O resto, as próprias coisas contem.


Comentário ao poema “PAREÇA E DESAPAREÇA” de Paulo Leminski

Neste poema, Leminski mergulha na instabilidade das aparências e na fluidez da identidade. O título já anuncia o jogo: parecer e desaparecer são movimentos simultâneos, como se o ato de se mostrar fosse também o de se perder.

O mundo como ilusão sensível

“Tudo parecia alguma coisa” — essa repetição cria um ritmo hipnótico, como se o mundo fosse um teatro de simulacros. O dia parece noite, o vinho parece rosas, a dor parece prazer. Nada é o que é, tudo se disfarça. Leminski aponta para a fragilidade da percepção, para o modo como os sentidos e os sentimentos se embaralham, confundem, mentem.

A semelhança como espelho

“Tão fácil ser semelhante, / quando eu tinha um espelho / pra me servir de exemplo.” Aqui, o eu se reconhece no outro, mas esse reconhecimento é mediado por um reflexo — não é encontro, é projeção. O espelho não revela, apenas repete. A identidade se constrói na aparência, e essa aparência é instável, volátil.

A quebra da ilusão

“Mas vice versa e vide a vida. / Nada se parece com nada.” O poema vira sobre si mesmo. Depois de afirmar que tudo parecia, Leminski desmonta essa lógica: no fim, nada coincide, nada se encaixa. A “fita” — talvez a memória, talvez a narrativa — não combina com a “tragédia encenada”. A vida escapa da representação, desmente o roteiro.

O tempo como fantasma

“Parece que foi ontem.” A frase se repete, como um eco. O tempo é um fantasma que ronda o poema, sempre presente, sempre ausente. O resto — diz Leminski — “as próprias coisas contem”. Ou seja, o que sobra é o que as coisas carregam em si, longe das aparências, longe das palavras.

📖 PAREÇA E DESAPAREÇA é um poema sobre o engano das formas, sobre o teatro da vida e sobre o momento em que o palco desaba. Leminski nos convida a desconfiar do que parece — porque o que parece, desaparece.


SINTONIA PARA PRESSA E PRESSÁGIO

Escrevia no espaço.

Hoje, grafo no tempo,

na pele, na palma, na pétala,

luz do momento.

Sôo na dúvida que separa

o silêncio de quem grita

do escândalo que cala,

no tempo, distância, praça,

que a pausa, asa, leva

para ir do percalço ao espasmo.



Eis a voz, eis o deus, eis a fala,

eis que a luz se acendeu na casa

e não cabe mais na sala.

Comentário ao poema “SINTONIA PARA PRESSA E PRESSÁGIO” de Paulo Leminski

Este poema de Leminski é uma meditação sobre o tempo, a escrita e a revelação. Ele se constrói como uma espécie de sinfonia entre o instante e o eterno, entre o silêncio e o grito, entre o espaço e o tempo.

A escrita como inscrição no tempo

“Escrevia no espaço. / Hoje, grafo no tempo” — o poeta desloca sua prática: antes, a palavra era lançada no vazio, agora ela se inscreve na duração, na pele, na palma, na pétala. A escrita se torna experiência sensível, gravada no corpo e na matéria efêmera.

Entre silêncio e escândalo

“Sôo na dúvida que separa / o silêncio de quem grita / do escândalo que cala” — Leminski explora paradoxos. O silêncio pode ser tão eloquente quanto o grito, e o escândalo pode se manifestar na ausência de som. O poema se coloca nesse intervalo, nessa fronteira onde o sentido se desestabiliza.

A pausa como asa

“Que a pausa, asa, leva / para ir do percalço ao espasmo.” A pausa, aqui, não é interrupção, mas impulso. É ela que transforma o tropeço em revelação, o percalço em espasmo criativo. O tempo, com suas pausas, é o motor da experiência poética.

A revelação final

“Eis a voz, eis o deus, eis a fala, / eis que a luz se acendeu na casa / e não cabe mais na sala.” O poema culmina em epifania: a voz, a fala, a luz — tudo irrompe de forma tão intensa que transborda os limites. A poesia é excesso, é iluminação que não se contém.

📖 SINTONIA PARA PRESSA E PRESSÁGIO é um poema sobre o instante que se abre em revelação. Leminski transforma o tempo em matéria poética, mostrando que a escrita é sempre um risco e um milagre: ela acende uma luz que não cabe nos limites da sala, nem nos limites da vida.


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